Reforma Protestante – 500 anos

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É fundamental que todos reflitamos muito sobre a contribuição de Lutero ao mundo. Principalmente, neste momento em que a sociedade brasileira vive tantas crises

Há 500 anos, um monge da Ordem de Santo Agostinho, dos fiéis mendicantes, afixou na porta da Igreja de Todos os Santos da Universidade Wittemberg, na Alemanha, as 95 teses, com o seu claro posicionamento a favor da “Justificação pela fé e não pelas obras”, baseado no texto da epístola de Paulo aos Romanos, capítulo 1º, Versículo 18.

Esse Monge se chamava Martinho Lutero. Em verdade, de início, com as suas 95 teses, não negava a autoridade papal, mas fazia profundas críticas a sua política e atacava a deformada ideia de que a graça divina pudesse ser comprada. Entendia Lutero que as práticas existentes, totalmente em desacordo com as Escrituras Sagradas, levavam os fiéis ao afastamento dos verdadeiros propósitos da religião cristã.

Uma das faltas mais graves era a prática da venda das indulgências. Essas ligadas diretamente ao sacramento da penitência. Após arrepender-se e confessar o erro, o sacerdote garantia a absolvição dos pecados, desde que o pecador pagasse alguma coisa. Esse privilégio era estendido às almas que estavam no purgatório, desde que seus familiares comprassem também as indulgências para o morto.

Os piores pecados eram, por meio dos milagres dos padres, expiados pelo poder do dinheiro, não do Espírito Santo. O povo irreverente logo criou uma quadrinha que expressava bem o espírito da época:

“AO TILINTAR DA MOEDA QUE NO FUNDO DO COFRE CAI, A ALMINHA DO PURGATÓRIO BATENDO AS ASINHAS SAI”.

Os príncipes alemães, insatisfeitos pela voracidade fiscal/tributária da Igreja, igualmente insatisfeitos por compartilhar o poder político de governo com os clérigos, passaram a apoiar Lutero, em especial Frederico da Saxônia, que lhe garantiu apoio econômico e segurança contra os seus perseguidores. Tudo isso associado à expansão da imprensa, viabilizada pelas invenções de Gutemberg, que acabou por atingir como um rastilho de pólvora todo o mundo.

A reforma não foi um acontecimento isolado, mas esteve intimamente vinculado à Renascença e ao nascimento da Era Moderna do século XVI, em todas as formas de expressão do conhecimento humano — nas ciências, tecnologias, cultura, artes, música, pintura, economia, relações sociais.

A partir de 1520, Lutero escreve muitos livros que serviriam de alicerce conceptual e doutrinário para as futuras Igrejas Luteranas e Reformadas, livros esses que aprofundavam ainda mais as incoerências da Igreja Romana.

Por exemplo:

– “Apelo à nobreza germânica”, em que critica o sistema hierárquico da Igreja de Roma;
– “O Cativeiro Babilônico”, em que critica o sistema sacramental de Roma. Lutero admitia apenas dois sacramentos: a eucaristia e o batismo;
– “Sobre a Liberdade do Homem cristão”, em que sustenta a afirmação do sacerdócio individual de todos os crentes. O cristão pode procurar o ser criador sem intermediação de sacerdotes. Afirma, assim, a valorização da oração individual diante das vãs repetições de uma reza.

Sua grande obra foi a tradução completa da Bíblia para o alemão, em 1534, reconhecida por todos como um documento imprescindível na unificação/homogeneização da língua alemã.

Excomungado pelo Papa Leão X, Lutero não desiste nem se retrata.

Em 1529, quando acontece a Dieta de Spira (SPAIR), 40% dos alemães já são protestantes. Impõe-se o direito de liberdade de culto. O Imperador Católico Carlos V é obrigado a ceder aos súditos o direito de escolha de fé. Ainda na Dieta de Spira, há um protesto dos príncipes e eleitores reformados, quando então surge o nome ‘protestantes’.

Os princípios básicos da Reforma de Lutero são:

– Uma única escritura;
– Uma única fé;
– Uma única graça.

Esses princípios básicos têm sido observados nesses 5 séculos de Reforma pelas principais denominações evangélicas, que surgem em decorrência do direito de liberdade propagado por Lutero para a interpretação bíblica. Luteranos, reformados, presbiterianos, anglicanos, congregacionais, puritanos (quartiers), batistas, menonitas e metodistas, até o final do século XVIII. A partir da 2ª metade do século XIX e no século XX surgem novas igrejas e denominações, como a Assembleia de Deus, cuja primeira foi organizada em Belém do Pará, Brasil, em 1911.

São passados 500 anos. É inegável a inexorável contribuição da Reforma à História da Humanidade:

– Florescimento das liberdades civis;
– O culto da razão em diálogo com a fé;
– Maior liberdade para a pesquisa científica (Galileu sofreu nos tribunais da Inquisição; Kepler e Copérnico, protestantes, tiveram plena liberdade);
– Fuga da inteligência;
– Esvaziamento de Portugal;
– A força libertadora da Reforma que desobstruiu a consciência do crente da obediência irrestrita à autoridade papal, fomentando à consciência individual;
– A valorização do trabalho e dos bens adquiridos através. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Antes era a Igreja e nobreza com os bens da riqueza como um direito divino.

No entanto, infelizmente, nos dias atuais, algumas Igrejas que se apresentam como evangélicas ou protestantes distorcem as práticas reformadas:

– O germe da contrarreforma;
– Indulgências do novo milênio = “Quem ofertar 100 ganhará 1000”. Troca de bênçãos e salvação por ofertas;
– Atitudes supersticiosas semelhantes ao antigo culto das relíquias — valorização dos objetos vendidos nas Igrejas;
– Poderes miraculosos do copo d’água colocado sobre o rádio durante a mensagem do missionário. = ‘É o copinho d’água do Zarur’;
– Bênçãos especiais para instrumentos de trabalho;
– Ditaduras de líderes das igrejas — donos das igrejas, com bispos e apóstolos auto-ordenados sem qualquer aval de um concílio;
– Utilização parcial do texto bíblico;
– Apenas as partes que interessam aos desígnios do homem e não de Deus;
– Ênfase nos textos escatológicos;
– Ameaças e medo de um fim próximo do mundo;
– Proliferação de falsos exorcismos. Nunca apareceram tantos endemoniados, até mesmo dentro das igrejas.

O dia 31 de outubro foi um marco fundamental da democracia religiosa na sociedade cristã do mundo ocidental. É fundamental que todos reflitamos muito sobre a contribuição de Lutero ao mundo no momento em que a sociedade brasileira vive tantas crises: moral, ética, religiosa, econômica, social, política.

Adm. Wagner Siqueira
Presidente do Conselho Federal de Administração

Sobre Wagner Siqueira

Adm. Wagner Siqueira
É filho de Belmiro Siqueira (Patrono dos Administradores no Brasil) e durante os últimos 6 anos (2011-2016) foi presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro (CRA-RJ), onde empreendeu uma firme e ampla luta em defesa do mercado de trabalho dos Administradores e dos Tecnólogos de Gestão. Seus posicionamentos no campo político-institucional, sempre independentes, lhe garantem a liderança da profissão em todo o Brasil. É o Diretor-Geral da Universidade Corporativa do Administrador (UCAdm), braço educacional do CRA-RJ. Eleito Conselheiro Federal pelo estado do Rio de Janeiro para o biênio 2017-2018.
É membro da Academia Brasileira de Ciências da Administração (ABCA) e vice-presidente da Escolinha de Artes do Brasil, entidade que realiza importantes obras em prol da cultura de jovens e adolescentes. Também é membro efetivo da Assembleia do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam).
É autor de mais de dez livros sobre Administração e de quatro outros sobre política e ação legislativa. Seu livro ‘As Organizações são Morais?’ foi recentemente lançado pela Editora Qualitymark (2014). É autor de centenas de artigos de opinião publicados em mídias nacionais de grande circulação e articulista do Portal Administradores.com.
É palestrante internacional e detentor do prêmio Personalidade Educacional concedido pela Folha Dirigida em 2013.
Foi presidente do Sindicato dos Administradores no Estado do Rio de Janeiro (Sinaerj) e da Federação Nacional dos Administradores (Fenae). E vice-presidente da CNPL – Confederação Nacional das Profissões Liberais.
Como Vereador da cidade do Rio de Janeiro e Deputado Estadual representou e defendeu os interesses coletivos, em especial, dos Administradores e dos funcionários públicos ativos e inativos.
Foi Secretário de Modernização Administrativa do Ministério do Planejamento; Diretor de Administração da EMBRATUR; Gerente de Administração e de Planejamento do BD Rio – Banco de Desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro; Presidente do IPERJ – Instituto de Previdência do Estado do RJ (atual Rioprevidência); presidente da FESP – Fundação Escola de Serviço Público; membro do Conselho Estadual de Educação; Secretário de Administração e Secretário de Desenvolvimento Social da Prefeitura do Rio de Janeiro; Presidente do Riocentro; e Presidente do IPLAN-Rio – Instituto Municipal de Planejamento da cidade do Rio de Janeiro.

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